Ressentimento e a dificuldade de esquecer o que fez sofrer
- queitioliveirapsic
- 16 de jan. de 2024
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No ressentimento, encontramos alguém com grande dificuldade em reconhecer e nomear afeto. A pessoa sente-se magoada, decepcionada, triste, pesarosa, com raiva ou ódio e não raro, tudo isso é acompanhado por um sentimento de estar sendo injustiçada, e impotente diante daquilo que sentiu como um agravo.
Podemos pensar o ressentimento como um ‘re-sentir’ – sentir de novo, e de novo, e de novo aquilo que faz sofrer, como uma ruminação de pensamentos, de sentimentos que ficam impedidos de serem elaborados e, assim, transformados em outra coisa.
Para a psicanalista Maria Rita Kehl o “... ressentimento é uma categoria do senso comum que nomeia a impossibilidade de se esquecer ou superar um agravo” (Kehl, 2020, p. 11). Esta autora retoma o pensamento do filósofo Nietzsche, para quem, o ressentimento impediria o esquecimento daquilo que outrora provocou sofrimento, impedindo também, que a vida posa ser levada adiante. A pessoa ressentida padece de intermináveis loopings de memórias dolorosas, “... sofre porque se dá conta de que deixou de viver o que o momento lhe oferecia...” e fica presa a um discurso acusatório contra tudo e todes a quem julga terem sido os responsáveis pelo seu sofrimento – sem conseguir refletir sobre sua responsabilidade, mesmo (Kehl, 2020, p. 27).
O ressentimento nas relações amorosas é um exemplo, e muito presente na clínica. Em geral, surge quando, diante da queda das idealizações em relações muito ancoradas em ilusões de perfeição. Alguns autores relacionam ressentimento e inveja, quando percebemos que há algo em outra pessoa que valoramos e desejamos. O psicanalista Renato Mezan afirma que aquilo que é invejado é “invariavelmente um objeto idealizado, isto é, sobrevalorizado, no qual se supõe conter atributos extraordinários, quase mágicos” (Mezan, 1987, p. 126).
Assim, percebe-se na clínica do ressentimento, a importância de uma escuta que abra um campo de reconhecimento, nomeação e expressão da raiva, da mágoa, do ódio, da inveja, dentre tantos outros afetos, que, por alguma razão, não puderam encontrar ser simbolizados e elaborados. Esse é o convite da psicanálise. E, se esse breve texto provocou alguma ressonância em você, ou se conecta com algo pelo que esteja passando no momento, entre em contato.
Queiti.
Referências
Kehl, M. R. (2020). Ressentimento. Boitempo Editorial.
Mezan, R. (1987). A inveja. In A. Novaes (Org.). Os sentidos da paixão (pp. 117-140). São Paulo: Companhia das Letras.
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